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As colunas do Kanban: desenhe o SEU fluxo

Aprenda a definir as colunas do Kanban a partir do fluxo real do seu time: colunas de espera, quando criar ou matar etapas e um exemplo real de 7 colunas.

11 min de leitura · Publicado em · Atualizado em

O que são as colunas do Kanban

As colunas do Kanban são as etapas visíveis pelas quais um item de trabalho passa, da ideia até a entrega. Cada coluna do quadro representa um estado do trabalho — "aguardando início", "em produção", "em revisão", "concluído" — e cada card ocupa exatamente uma coluna por vez. Quando alguém move um card para a direita, está dizendo ao time inteiro: "este item mudou de estado". É esse gesto simples que transforma um quadro cheio de post-its em um sistema de gestão de fluxo.

O detalhe que quase todo mundo ignora: as colunas não são uma convenção universal, são um retrato do seu processo. O trio "A fazer, Fazendo, Feito" que aparece em todo tutorial é só o exemplo mínimo — útil para explicar o conceito, raramente suficiente para gerir um time de verdade. O fluxo real de um time de marketing tem aprovação de cliente; o de um jurídico tem análise de contraparte; o de engenharia tem teste e integração. Se o quadro não mostra essas etapas, o trabalho fica invisível justamente nos pontos em que ele mais empaca.

Por isso a pergunta certa não é "quais são as colunas do Kanban?", e sim "quais são as etapas do MEU fluxo?". Este artigo mostra como descobrir essas etapas, por que as colunas de espera merecem lugar no quadro, quando vale criar ou eliminar uma coluna — e um exemplo concreto de fluxo com 7 colunas usado em produto de verdade.

Por que copiar as colunas dos outros dá errado

É tentador: você pesquisa "quadro Kanban exemplo", encontra um modelo bonito com cinco colunas e replica no seu time. Duas semanas depois, o quadro está abandonado. O que aconteceu?

O quadro copiado descreve o processo de outro time. Quando as colunas não correspondem ao que as pessoas realmente fazem, acontecem três sintomas clássicos:

  • Cards que "moram" numa coluna. O item entra em "Em andamento" e fica ali dez dias — porque dentro desse "andamento" existem, na verdade, três etapas distintas (produzir, revisar, aprovar) que o quadro não mostra. Ninguém sabe em qual delas o item está sem perguntar.
  • Colunas fantasma. Aquela coluna "Em validação" que veio no modelo, mas que no seu processo não existe. Os cards pulam por cima dela ou alguém a usa "mais ou menos", e o quadro perde credibilidade: se uma coluna mente, todas viram suspeitas.
  • Movimentos de mentirinha. As pessoas movem os cards no fim do dia só para o quadro "parecer atualizado", em vez de mover no momento em que o estado muda. O quadro vira relatório retroativo, não ferramenta de trabalho.

O problema de fundo é o mesmo nos três casos: o quadro deixou de ser um mapa do território. E um mapa errado é pior que nenhum mapa, porque dá a sensação de controle sem o controle. A boa notícia é que desenhar as colunas certas leva uma reunião de uma hora — e o método cabe numa única pergunta.

Como descobrir as etapas reais: "o que acontece com o item depois?"

Reúna o time diante de um quadro em branco (físico ou digital) e pegue um item de trabalho típico — uma campanha, um contrato, uma vaga a preencher, uma funcionalidade. Agora repita esta pergunta até chegar na entrega:

"E o que acontece com esse item depois?"

Cada resposta que envolve mudança de estado ou de responsável é uma candidata a coluna. Veja como isso funciona num time de conteúdo, com a coordenadora Renata conduzindo:

  • "A pauta é aprovada no planejamento." → coluna A fazer (aprovado, aguardando alguém pegar)
  • "Alguém do time escreve o texto." → coluna Em produção
  • "E depois?" — "Vai para revisão da editora." → coluna Em revisão
  • "E depois?" — "Se o cliente pediu, vai para aprovação dele." → coluna Aguardando cliente
  • "E depois?" — "A gente publica e agenda a distribuição." → coluna Publicação
  • "E depois?" — "Acabou." → coluna Concluído

Seis colunas, nenhuma inventada: cada uma nasceu de uma resposta. Repare em dois pontos do método. Primeiro, a etapa "Aguardando cliente" apareceu naturalmente — no modelo copiado da internet ela nunca estaria, e é exatamente onde os itens da Renata mais atrasam. Segundo, o que não muda o estado do item não vira coluna: "a editora deixa comentários no documento" é parte de "Em revisão", não uma etapa nova.

Duas regras de bolso para filtrar as candidatas:

  1. Se dois cards na mesma coluna podem estar em situações completamente diferentes, falta uma coluna. ("Em andamento" com um card sendo escrito e outro esperando aprovação há uma semana = duas etapas disfarçadas de uma.)
  2. Se você nunca precisaria responder "em que pé está?" apontando para essa coluna, ela sobra. Etapas que duram minutos ou que ninguém consulta podem ser uma checklist dentro do card.

Se você está montando o quadro do zero, vale ler junto o passo a passo de como montar um quadro Kanban — as colunas são a primeira decisão, mas não a única.

Colunas de espera: torne a fila visível

Aqui está a diferença entre um quadro decorativo e um quadro que gerencia fluxo: as esperas aparecem como colunas.

Todo fluxo real tem momentos em que ninguém do time está trabalhando no item — ele está esperando outra área, um fornecedor, um cliente, uma assinatura. A tendência natural é esconder essa espera: o card fica em "Em andamento" enquanto, na prática, está parado numa caixa de e-mail alheia. Resultado: o quadro mostra um time ocupado, quando o gargalo real está fora dele.

Uma coluna de espera explícita — "Aguardando jurídico", "Aguardando cliente", "Dependência externa" — resolve três problemas de uma vez:

  • Protege o time. Quando o diretor pergunta por que o contrato está atrasado, o quadro responde: está há oito dias em "Aguardando contraparte". A conversa muda de "por que vocês não terminaram?" para "como pressionamos quem está segurando?".
  • Revela o gargalo verdadeiro. Se metade dos cards do quadro vive em colunas de espera, o problema do time não é produtividade — é dependência. Essa descoberta muda completamente o plano de ação, como detalhamos em gargalos no fluxo Kanban.
  • Melhora a medição. O tempo que o item passa em espera versus em trabalho ativo é um dos números mais reveladores da gestão de fluxo. Sem coluna de espera, o lead time vira um número cego: você sabe que demorou vinte dias, mas não sabe que quinze foram esperando terceiros.

Exemplo fora da TI: o time de RH da Camila usava três colunas para vagas ("Abertas", "Em processo", "Fechadas") e vivia levando cobrança por lentidão. Ao redesenhar o quadro, criaram "Aguardando aprovação do gestor" e "Aguardando retorno do candidato". Em duas semanas ficou visível que a maior parte do tempo de contratação não estava com o RH — estava com gestores que demoravam a avaliar currículos. A cobrança mudou de endereço, e o processo melhorou porque o problema certo entrou na pauta. Há mais casos assim em Kanban fora da TI.

Uma convenção que ajuda: nomeie a coluna de espera dizendo por quem se espera ("Aguardando cliente", não só "Bloqueado"). O nome já aponta a ação de destravamento.

Quando criar uma coluna — e quando matar uma

O quadro não é um contrato assinado em cartório: ele deve evoluir com o processo. Os sinais são bem concretos.

Crie uma coluna quando:

  • Os cards ficam dias "parados" dentro de uma coluna e você precisa perguntar para saber o estado real deles. Está faltando dividir aquela etapa.
  • Existe uma espera recorrente por alguém de fora que hoje fica invisível (a coluna de espera da seção anterior).
  • Uma etapa de verificação vive sendo pulada por esquecimento — dar coluna a ela ("Em revisão", "Teste") torna impossível fingir que aconteceu.
  • O mesmo tipo de retrabalho se repete porque itens "prontos" voltavam: uma coluna intermediária de validação intercepta o problema antes do "Concluído".

Mate (ou funda) uma coluna quando:

  • Os cards atravessam a coluna em minutos, sem que ninguém faça nada nela. Ela é um pedágio, não uma etapa.
  • Ninguém sabe explicar a diferença entre ela e a vizinha ("Em análise" vs. "Em avaliação" — qual é qual?).
  • Ela existe só para um tipo raro de item. Nesse caso, uma etiqueta ou uma checklist dentro do card resolve sem poluir o quadro de todos.
  • O time parou de usá-la e os cards pulam direto. O quadro já votou; formalize.

O ritmo bom de revisão é aproveitar a retrospectiva e perguntar: "alguma coluna mentiu para a gente neste ciclo?". Cinco minutos bastam. E lembre-se de que colunas andam de mãos dadas com limites de WIP: cada coluna nova de trabalho ativo é um lugar onde itens podem se acumular, então defina quantos cards cabem nela ao criá-la.

Um cuidado final: resista à tentação de criar colunas para pessoas ("Coluna do João") ou para prioridades ("Urgente"). Coluna é etapa do fluxo; responsável se indica no card, prioridade se indica pela ordem vertical dentro da coluna. Misturar esses conceitos é a forma mais rápida de transformar o quadro num armário bagunçado.

Um exemplo real: as 7 colunas do board do TeamBOX

Para sair da teoria, vale dissecar um fluxo real. No TeamBOX, o board da sprint vem com 7 colunas que refletem o caminho completo de uma User Story em um time de produto:

A fazer → Em andamento → Feito → Dependência externa → Teste → Merge → Concluído PRD

Por que essas sete, e não as três clássicas?

  • A fazer e Em andamento dispensam apresentação: o compromisso da sprint e o trabalho ativo.
  • Feito aqui significa "o desenvolvimento terminou" — mas repare que ela não é a última coluna. Essa é uma decisão deliberada: "terminei minha parte" e "está entregue" são estados diferentes, e tratá-los como sinônimos é a origem de muita frustração com prazos.
  • Dependência externa é a coluna de espera explícita: o item está aguardando algo fora do alcance do time — outra equipe, um fornecedor, uma aprovação de negócio. Ela merece existir porque, sem ela, esses itens ficariam camuflados em "Em andamento", inflando a sensação de trabalho travado e escondendo de quem gerencia o dado mais importante: quanto da lentidão vem de fora. Quando o gestor olha o board e vê três cards estacionados ali, a conversa da daily muda de "por que não terminou?" para "quem destrava isso?".
  • Teste dá coluna própria à verificação, para que ela nunca seja "esquecida" no caminho — e para que um acúmulo ali denuncie na hora que o time produz mais rápido do que valida.
  • Merge representa a integração do trabalho ao produto principal: pronto e testado, mas ainda não incorporado.
  • Concluído PRD é o "feito de verdade": integrado, validado e em produção, cumprindo o que o documento de requisitos pediu.

Você não precisa dessas sete colunas — esse é justamente o ponto do artigo. Um time de eventos, um estúdio de design ou uma equipe comercial terão outras etapas. Mas o raciocínio por trás delas é universal: separar "terminei" de "entregue", dar nome às esperas, dar coluna às verificações que não podem ser puladas. Se o seu time trabalha em ciclos e você está decidindo entre fluxo contínuo e sprints, a comparação de Kanban vs. Scrum ajuda a escolher o regime antes de desenhar as colunas.

Checklist para desenhar as suas colunas

Antes de inaugurar (ou reformar) o quadro, passe por esta lista com o time:

  1. Mapeie com a pergunta-guia. Peguem um item típico e repitam "o que acontece com ele depois?" até a entrega. Cada mudança de estado ou de responsável é candidata a coluna.
  2. Dê nome de estado, não de pessoa. "Em revisão", não "Com a Paula". Colunas descrevem etapas; responsáveis vão no card.
  3. Exponha as esperas. Toda dependência recorrente de terceiros ganha coluna própria, nomeando por quem se espera.
  4. Separe "terminei" de "entregue". Se existe qualquer etapa entre o fim do trabalho ativo e o valor chegar a quem pediu (aprovação, publicação, integração), ela precisa aparecer.
  5. Defina o que significa "entrar" em cada coluna. Uma frase por coluna ("entra em Teste quando…") evita interpretações diferentes — é o embrião da sua definition of done por etapa.
  6. Comece com menos e evolua. Na dúvida entre 5 e 8 colunas, comece com 5. É mais fácil criar uma coluna que o time pede do que matar uma que virou móvel.
  7. Marque a revisão. Combine desde já: a cada retrospectiva, uma pergunta — "alguma coluna mentiu para a gente?". O quadro que evolui junto com o processo é o único que sobrevive.

O quadro perfeito não existe; existe o quadro honesto. Se as colunas contam a verdade sobre onde o trabalho está — inclusive quando a verdade é "parado, esperando alguém de fora" — o Kanban cumpre sua promessa: transformar conversa vaga sobre atraso em decisão concreta sobre fluxo.

Perguntas frequentes

Quais são as colunas do Kanban?

Não existe um conjunto oficial. O mínimo clássico é 'A fazer', 'Em andamento' e 'Feito', mas essas três colunas são só um ponto de partida. As colunas certas são as etapas reais pelas quais o trabalho do SEU time passa — incluindo as esperas, como 'Aguardando aprovação' ou 'Dependência externa'.

Quantas colunas deve ter um quadro Kanban?

O suficiente para representar cada etapa em que o item muda de estado ou de responsável, e nada além disso. Na prática, a maioria dos times fica entre 4 e 8 colunas. Menos que isso costuma esconder esperas; mais que isso costuma indicar colunas que ninguém usa ou etapas que poderiam ser uma checklist dentro do card.

Posso mudar as colunas do Kanban depois que o quadro já está em uso?

Sim, e deve. O quadro é um mapa do seu processo, e processos mudam. Crie uma coluna quando os itens ficam parados 'invisíveis' dentro de outra, e elimine uma coluna quando os cards só passam por ela sem que ninguém faça nada ali. Revisar as colunas a cada retrospectiva é uma prática saudável.

O que é uma coluna de espera no Kanban?

É uma coluna que representa um período em que ninguém do time está trabalhando no item — ele está aguardando outra pessoa, outra área ou um fornecedor. Exemplos: 'Aguardando cliente', 'Em aprovação jurídica', 'Dependência externa'. Tornar a espera visível é essencial para medir onde o tempo realmente se perde.

Kanban precisa ser só 'A fazer, Fazendo, Feito'?

Não. Esse formato de três colunas é apenas o exemplo mais divulgado. O método Kanban pede que você visualize o fluxo de trabalho como ele é — e quase nenhum fluxo real tem só três estados. Times de marketing, jurídico, RH e engenharia costumam precisar de colunas próprias, como revisão, aprovação e espera por terceiros.

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